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O LIVRO

 

SOMOS FEITOS DE AVENTURA

                                                                       Luzia de Maria

      “Você pode comprar uma passagem aérea e desembarcar no fascinante mundo dos exageros, o Alasca. Mas conhecê-lo de carro, saindo do Brasil, percorrendo toda a América é realmente algo inusitado e fantástico.” Assim avalia a autora do livro. Assim avaliamos nós, que bebemos essa aventura no sabor das palavras, construindo na imaginação os cenários e experimentando as emoções através da leitura. Sair do sul do Brasil num Land Rover, subir toda a América do Sul, atravessar a América Central, cruzar os Estados Unidos e o Canadá e banhar-se nas águas do Mar Ártico é proeza de quem muito ama o conhecimento. Porque, mais do que tudo, o que fica é a certeza do conhecer de perto, do verdadeiramente conhecer, co-nascer, nascer com. Este, afinal, é o significado de conhecer.

      Em 252 dias percorrer mais de 72 mil quilômetros de estrada não é apenas querer chegar ao Alasca, é muito mais imitar o rio, de Guimarães Rosa, que não quer ir a nenhuma parte, “quer é chegar a ser mais grosso, mais fundo.” Porque o que vemos, acompanhando agora o relato, é que Cláudio e Joyce, exercitando a mais genuína  curiosidade, perseguiam incansavelmente as belezas das margens, recolhiam com avidez, como o rio, substâncias diárias de bem-viver. Por isso ela conclui: “A vida que se vive é a vida que se leva.” Por isso ele volta com 22 mil fotos, esperto que é na arte de oferecer aos olhos jeito certeiro de “passar de novo pelo coração”: re-cordar

      Com entusiasmo quase infantil, ela procura nos convencer de que, mais importante que namorar à distância, é sentir na pele as emoções de testemunhar ao vivo a multiplicidade humana e a riqueza natural. Sabemos disso. Mas sabemos também que “toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada” e toda viagem começa por um conhecimento de longe, na maioria das vezes filtrado em imagens e palavras impressas. A escrita tecendo encontros. Costumo dizer que a viagem será sempre mais rica, quanto mais próxima estiver de um re-conhecimento. A leitura é, sim, uma experiência indireta, mas sem dúvida é uma forma espetacular de aproximação. Cláudio e Joyce sabiam o que buscar nas margens, sabiam o que queriam encontrar. Essa viagem teve início muito antes do dia da partida, como ela mesma conta. Entre os itens da necessária bagagem, ocupando bom espaço do carro, lá estava uma caixa com a “biblioteca de viagem”, de tal importância que foi registrada em uma das fotos do site.

     Contar todas as peripécias em palavras e não somente em imagens, querida Joyce, é o seu modo de conjugar o verbo partilhar. Porque este livro, para todos os que por suas páginas viajarem, vai oferecer, como ofereceu a nós, que tivemos o privilégio de o ler no original, momentos extraordinários:

      Não pisamos na terra chilena, mas sentimos com vocês a emoção de atravessar o Paso de San Francisco, com seus 4.726 metros de altitude; apreciamos com reverência o magistral perfil da Cordilheira dos Andes e admiramos a grandeza da Mano del Desierto, a bela escultura de Mario Irarrázabal que parece nascer da areia. Não fizemos ao vivo o trajeto de Antofagasta a Iquique, mas visualizamos na imaginação a impecável estrada atravessando 278 quilômetros de deserto tendo, de um lado, a imponência das cordilheiras e, de outro, a exuberância do mar. E também nos surpreendemos ao avistar aquele inacreditável campo de golf plantado no deserto, decorado com árvores de ferro.

      Não estivemos ao volante, mas vamos sempre nos lembrar das insistentes buzinas dos peruanos, uma espécie de contraponto às agradáveis surpresas que o país oferece: a bela Arequipa, cidade construída com lavas vulcânicas, em cuja Plaza de Armas estão vivas as marcas da história e de onde se pode apreciar o pico do vulcão El Misti; o impressionante Cânion del Colca, um dos mais profundos do planeta, com seus 3.420 m de desnível, hospitaleiro lar de condores, sagrados pássaros dos vales peruanos; no cálido deserto de Nazca, numa extensão de aproximadamente 500 quilômetros quadrados, constituindo um dos mais impressionantes sítios arqueológicos da Humanidade, as famosas Líneas de Nazca: centenas de desenhos feitos em sulcos no solo, linhas retilíneas quilométricas, espirais e gigantescas figuras de aves, flores, lagartos e outras imagens estilizadas, só avistadas do alto, em um sobrevôo; e, atiçando o legítimo desejo do Cláudio em ver de perto e certamente fotografar, Trujillo nos oferece Chan Chan, considerada a maior cidade de barro do mundo, preciosa relíquia arqueológica que a Unesco declarou, em 1986, Patrimônio Cultural da Humanidade.

      Não atravessamos nenhuma das 17 fronteiras, nem experimentamos o cansaço de dirigir mais de mil quilômetros em um dia, mas sentimos a exuberância das cores do Equador e com vocês caminhamos pelas belas ruas de pedra de Cuenca; entramos  maravilhados na simpática livraria, aprovamos a escolha do chocolate quentinho nos lembrando os elegantes cafés de Buenos Aires e também nos encantamos com a acolhida hospitaleira do povo equatoriano, de que Roberto, Janeth e seus três filhos foram espontâneos representantes. Mas, indiscutivelmente, o presente mais especial que vocês trazem do Equador para partilhar com seus leitores é a visita às Islas Galápagos, cuja surpreendente riqueza natural levou Joyce a se sentir “pequena e insignificante” e a fotógrafa Tui de Roy a declarar que elas, as ilhas, “son intemporales; el hombre, com su vida tan agitada, solamente está de paso”.

      Não percorremos os 72.496 quilômetros de estradas, mas sentimos, na emoção do texto, o charme da pequena Costa Rica, orgulhosa de seu programa de preservação ambiental, um dos mais ambiciosos da América Central; testemunhamos pesarosos o forçado descanso de mais de 20 dias em Zihuatanejo, no México, que levou os dois viajantes a uma travessia apressada pelos Estados Unidos e Canadá, sendo obrigados, mesmo diante de maravilhas namoradas durante anos, como a Golden Gate, em São Francisco, ou frente às paisagens deslumbrantes do Estado de Washington, a se permitirem apenas uma mirada rápida, na sofreguidão de quem tem pressa de chegar, porque a natureza tem seu tempo; sentimos com os dois a ansiedade que os fez usufruir da Califórnia somente um breve aperitivo, reservando para a volta mais largo espaço de degustação, principalmente no muito que têm a oferecer os belíssimos e bem cuidados parques nacionais norte-americanos; também nós tivemos o coração acelerado ao encontrar tantos carros de volta do Alaska e ao ouvir os inquietantes prenúncios e boatos de que já se havia encerrado o período de visitação ao Mar Ártico; e, como num happy end cinematográfico, quase batemos palmas ao ver que, percorridos tantos milhares de quilômetros, de Santa Catarina até o extremo norte do continente americano, Joyce e Cláudio conseguem chegar ao Mar Ártico no último dia de visitação, inseridos no último passeio antes da oficial chegada do inverno; e aplaudimos a audácia daquele banho gelado do fotógrafo, banho com sabor de brinde.

      Não fosse a brevidade que deve caracterizar um prefácio, nos obrigando à contenção, mais ficaríamos – como criança que se diverte – apontando os pontos mais marcantes dessa bela empreitada. Mas sabemos que tais pontos serão únicos para cada um dos leitores: a alguns poderá ser a Glenn Highway, apropriadamente chamada “National Scenic Byway”, estrada de cinema, tão extraordinária é a sua beleza;  a outros serão os picos nevados e o azul impossível dos inúmeros lagos da região das Montanhas Rochosas, no Canadá; haverá aqueles que elegerão o Sequóia National Park, nos Estados Unidos, literalmente subjugados pela grandiosidade das milenares e gigantescas árvores; haverá outros para quem a vida selvagem e os fantásticos caprichos da natureza, no Yelloswtone National Park, o tornarão único e especial; a impressionante imponência do Grand Canyon, um recordista em visitação, definirá a sua escolha por muitos; sem dúvida, apreciar a rápida exibição das estrelas cruzando o céu, na Aurora Boreal, será escolha de inúmeros; o Salto Angel, com seus 979 metros de altura, a maior cachoeira do planeta, no povoado de Canaima, na Venezuela, e a simpática acolhida dos índios kamaracotos certamente será eleito por muitos outros; e haverá, ah! sem dúvida haverá os que farão do encontro das águas do rio Negro e Solimões, na Amazônia, o momento inesquecível deste percurso. Porque muitos são os leitores e incrivelmente rica a diversidade humana.

      E justamente por isso, quero ao encerrar este texto trazer à lembrança uma frase de Joyce: “O mundo é feito de pessoas!”  Esta singela e entusiástica afirmativa resume sua constatação  de que a viagem não ofereceu a eles apenas imagens absolutamente extraordinárias de requintes da natureza ou do ímpeto construtor dos homens, mas também lhes proporcionou amostras muito especiais da autêntica e admirável gentileza humana: em qualquer parte, presenças afetivas e calorosas. 

      Amyr Klink, citado por Joyce, afirma: “Um homem precisa viajar.” Nós gostaríamos de fazer um acréscimo: e se ou quando não for possível viajar na geografia, cruzar terras ou mares, caro leitor, que você se anime a fazer o percurso nas páginas impressas. Aqui e agora pode ser o ponto de partida: ajeite-se confortavelmente na poltrona e siga adiante, tomando posse dos mais belos tesouros das Américas aqui apresentados.  Pois como crê a autora e cremos nós, “é uma grande tolice viver sem aventura!!!”

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LUZIA DE MARIA é escritora, autora entre outros de Minha caixa de sonhar – Histórias de viagens para jovens de qualquer idade, vols. I e II e Leitura & Colheita – Livros, leitura e formação de leitores. Site: www.luziademaria.com